Quero inicialmente transmitir minha mais calorosa saudação ao querido líder e amigo Gianni Samaja, que pela terceira vez exerceu a presidência do Sindusfarma, e com quem tive a honra de colaborar na gestão que ora se encerra.
Também agradeço, em nome de toda a diretoria, a confiança que as empresas filiadas mais uma vez depositaram em nosso trabalho, dando-nos a oportunidade de novamente servir à indústria farmacêutica.
Acompanho a trajetória do Sindusfarma desde jovem, quando meu pai dirigia a instituição.
Com ele aprendi que o papel de uma entidade como o Sindusfarma é o de orientar e impulsionar o setor, disseminar o conhecimento científico e tecnológico, defender a livre iniciativa, apontar caminhos para o aprimoramento da saúde pública. E apoiar incondicionalmente todas as medidas voltadas para o desenvolvimento nacional.
Reassumo a presidência do Sindusfarma pensando nisso - nos ensinamentos de meu pai - e nos desafios que eu e meus pares de diretoria estamos dispostos a enfrentar, em defesa dos legítimos interesses da indústria farmacêutica.
Vivemos um momento de grandes transformações no setor e na economia do país. Transformações estas que exigem das lideranças políticas, empresariais e sociais seriedade, audácia e ponderação.
No plano institucional, a indústria farmacêutica passa por uma fase de transição. A Febrafarma, que a representou nos últimos anos, foi extinta, porque suas entidades mantenedoras entendem que a instituição cumpriu sua missão de articular o setor. Caberá agora a essas entidades dar continuidade à tarefa, de acordo com seus objetivos e interesses específicos.
No que se refere ao papel desempenhado pelo Sindusfarma, nada vai mudar. O Sindusfarma continuará sendo o que sempre foi:
- Uma entidade que investe na interlocução de alto nível com as autoridades, os profissionais da saúde e a sociedade em geral, com sólido embasamento técnico-científico, político e econômico;
- Uma entidade agregadora, harmonizadora das propostas das entidades e elos da cadeia;
- Uma entidade que busca a convergência e a defesa dos interesses legítimos não somente do segmento industrial farmacêutico paulista – o mais importante do país – mas também dos pólos menores.
Esta atitude se fundamenta na crença de que o desenvolvimento da indústria farmacêutica passa pelo respeito e pelo equilíbrio de forças entre as diversas instâncias setoriais e regionais.
Nossa relação com a Anvisa (a agência reguladora do setor) é muito boa, apesar de eventuais divergências de opinião. Mantemos um diálogo franco e transparente, apoiando os avanços regulatórios que elevaram os padrões da indústria farmacêutica ao nível dos países mais desenvolvidos.
Às vezes, porém, o órgão adota medidas que desconsideram questões práticas do processo produtivo na indústria farmacêutica. Isto gera perda de eficiência e custos adicionais que acabam por comprometer o desempenho das empresas e prejudicar a continuidade de projetos.
O Sindusfarma quer colaborar com a Anvisa para a eliminação deste gargalo.
A economia do país vive um de seus melhores momentos. O Brasil acumula prestígio, reservas e investimentos.
O otimismo é generalizado entre as empresas nacionais e as internacionais, em todos os segmentos.
Repete-se, numa escala maior, o círculo virtuoso dos primeiros anos do Plano Real, quando a estabilização da moeda propiciada pelo controle da inflação criou as bases para o aumento de renda da população e a incorporação de dezenas de milhões de consumidores ao mercado.
Naquela época – meados da década de 1990 – em que o PIB crescia 1,5% ao ano em média, os laboratórios nacionais e internacionais acreditaram no Brasil e investiram aqui bilhões de dólares.
No limiar deste século, os resultados desta decisão já eram palpáveis: o país tinha um dos mais modernos parques industriais farmacêuticos do mundo, fabricava e começava a exportar medicamentos de ponta e dava os primeiros e vigorosos passos na produção dos medicamentos genéricos.
O mercado de medicamentos cresceu, oferecendo oportunidades para que empresas de diferentes perfis e origens de capital prosperassem. As exportações do setor se multiplicaram, superando a marca histórica do bilhão de dólares no ano passado.
Desempenho invejável, alcançado apesar dos entraves regulatórios, da elevada carga tributária e do controle de preços restabelecido no ano 2000.
Hoje, diante da projeção de crescimento do PIB de 5% neste ano, que acompanha a elevação média de 4,8% entre 2004 e 2008, as perspectivas são ainda melhores.
Registre-se que, neste início de 2010, a indústria farmacêutica experimenta um aperto na rentabilidade provocado pelo aumento de custos de produção. Os principais focos de pressão são o aumento de preços de matérias-primas e insumos essenciais, os reajustes salariais de sua mão-de-obra qualificada, e a elevação das tarifas públicas.
De todo modo, o panorama é animador. Mas, para aproveitar esta conjuntura favorável e o potencial dos mercados interno e externo, será preciso mais foco e mais ousadia.
Economistas de prestígio alertam para as limitações do atual modelo brasileiro, baseado principalmente nos saldos comerciais obtidos pela exportação de commodities. O mais sensato, dizem, seria incentivar o aumento do consumo e dos investimentos internos e apoiar a formação de setores de maior valor agregado, intensivos em pesquisa e desenvolvimento, que possam competir com vantagens nos mercados externos.
As políticas industriais concebidas em 2004 e 2008 tinham como pressuposto fortalecer segmentos de alto conteúdo tecnológico, como o farmacêutico. Só que seu objetivo declarado era o de reduzir em curto espaço de tempo o déficit na balança comercial e não exatamente dar competitividade no comércio internacional à indústria de ponta, abrindo novos mercados e oportunidades para os empreendedores e trabalhadores brasileiros.
De fato, a preferência foi dada a setores tradicionais da economia, com inegáveis ganhos para as exportações.
Acreditamos, no entanto, que o ideal seria conciliar os objetivos de curto, médio e longo prazo, como vem preconizando o BNDES, por meio do Profarma, cuja continuidade deve ser assegurada.
Incentivar a constituição de grandes grupos econômicos e reduzir o déficit da balança comercial é até desejável, mas não suficiente, principalmente para um país que pretende dar um salto qualitativo no ramo industrial.
O Brasil deveria se espelhar, portanto, na experiência dos segmentos que dominam a rota tecnológica. O exemplo das empresas líderes do setor farmacêutico internacional indica que a inovação em medicamentos pode trazer benefícios para o país e a sociedade como um todo, se forem tomadas medidas que harmonizem os diversos interesses envolvidos.
As empresas devem ter uma perspectiva de remuneração pelos investimentos realizados e os governos devem estabelecer políticas de controle de preço que limitem os ganhos excessivos, mas não a ponto de desestimular os investimentos em inovação, uma vez que os medicamentos inovadores podem apresentar uma eficácia e potência que resultam em prazos e custos totais menores de tratamento.
A tese que eu e meus companheiros de Diretoria defendemos não se aplica apenas ao desenvolvimento da indústria farmacêutica. Contempla o futuro da economia brasileira, uma estratégia de longo prazo e sua inserção no mercado global.
Como parte de uma visão estratégica de largo alcance, o incentivo ao perfil inovador do setor farmacêutico se constituiu num motor de conhecimento, capacitação tecnológica e desenvolvimento econômico.
E não somente nisto. Vem ao encontro dos anseios da população por bem-estar e qualidade de vida, aplacando a difícil situação da saúde pública, que preocupa a sociedade e pressiona as autoridades.
Em recente pesquisa de opinião, o instituto Datafolha constatou que, pela primeira vez desde 2003, os brasileiros apontam a Saúde como o principal problema do país, à frente da violência, do desemprego, da fome e do acesso à educação.
A cooperação entre governo e as empresas que compõem o chamado complexo produtivo da saúde é fundamental para que se criem as condições necessárias para enfrentar este desafio enorme.
A indústria farmacêutica é historicamente um vetor de progresso social e econômico, mas é acima de tudo uma atividade movida pela vocação.
Quando nós, da indústria farmacêutica, ouvimos pessoas mal-informadas atribuindo aos laboratórios a responsabilidade por problemas de saúde de outra natureza e seara, pensamos nos extraordinários avanços realizados e na tarefa gigantesca que o setor tem diante de si em seu mister de descobrir medicamentos que curem ou minimizem os efeitos das moléstias que afligem a Humanidade.
Quem conhece os crescentes índices de expectativa de vida e os indicadores de queda de mortalidade por doenças tidas como incuráveis até décadas atrás – fruto do árduo e profícuo trabalho de médicos, farmacêuticos, cientistas, fabricantes de equipamentos médico-hospitalares e laboratórios em todo o mundo, entre outros profissionais e segmentos dedicados à saúde - sabe que a indústria farmacêutica não é fonte de problemas. Sempre foi e continuará sendo parte inalienável da solução.